Só quem enfrentou situações limites reconhece o valor da vida. E é assim, resistindo a fome, cansaço, sono e medos, que comissários de bordo aprendem a sobreviver caso um avião caia em uma selva .

São raros os casos de acidentes aéreos em matas com sobreviventes. Mas, caso saiam vivos da tragédia, os comissários devem estar preparados para garantir a sua própria vida e a dos passageiros, sabendo comandá-los na busca pela comida e pelo abrigo.

O curso de sobrevivência na selva é uma exigência da Agência Nacional de Aviação (Anac) para a profissão, e o DIÁRIO acompanhou a experiência de 217 comissários que se formam neste ano no Centro Educacional de Aviação do Brasil (Ceab), em São Paulo.

Os professores são PMs da tropa de Comandos e Operações Especiais (COE), especialistas em resgate e sobrevivência na mata. E, como a selva , eles são duros, exigem disciplina, liderança e responsabilidade.

Os jovens ficam dois dias isolados, constroem a cabana onde passam a noite, aprendem a se deslocar e a se localizar e a caçar animais com armadilhas. A alimentação é escassa e muitos desmaiam. “157, não se apega à galinha que você vai matá-la e come-la”, diz um dos instrutores ao participante que carrega a ave, única alimentação de todos por um dia. O comissário usa na cabeça um boné com seu número. A lição é que, para sobreviver na mata, deve-se usar “todos os meios de fortuna” – literalmente, tudo o que achar pelo caminho.

O treinamento começa com uma caminhada difícil: em meio à terra escorregadia e à mata fechada, aprende-se a transpor os obstáculos com o corpo em lateral, e nunca de frente, para não se machucar. Quando perdido, a regra se chama “ESAON”: estacione e sente-se, para guardar energia, acalme-se e alimente-se, oriente-se (descubra onde está pelos sinais da natureza, como o sol) e só depois navegue, se tiver certeza do destino.

Fogo sem fósforo e superação na pior hora

Para sobreviver, a regra é não desistir nunca. No curso, os comissários aprendem técnicas de como fazer fogo sem fósforo e, assim, aquecer-se e cozinhar a comida. Há maneiras complicadas de fazer fogo, como friccionar uma madeira na outra, o que demora entre uma hora e 15 minutos. A mais fácil, para principiantes, é posicionar duas pilhas grandes, uma em cima da outra, e ligar uma ponta à outra com esponja de aço.

Em caso de incêndio, os profissionais devem saber controlá-lo com extintores. “Combate-se sempre a favor do vento, pelas costas do fogo, em movimento de varredura”, ensina o diretor do Ceab, Salmeron Cardoso.

Um dos principais momentos do curso de sobrevivência é a “casinha da fumaça”. Com a responsabilidade de liderar os passageiros em situações de desespero após um grave acidente, os comissários de bordo têm de sair de uma casa fechada, com muita fumaça, e se deslocar lá dentro em um labirinto. Sem enxergar nada à frente, o grupo tem de raciocinar: só deixa o confinamento após responder três perguntas. Alguns desmaiam e outros passam mal, mas todos sobrevivem. O objetivo é unir o grupo e ensiná-lo a reagir diante de adversidades.

“O curso é uma lição de vida que nos faz valorizar pequenas coisas. Aprendemos a sobreviver frente a dificuldades, tanto na terra quanto no ar. Eu tenho problemas respiratórios e medo de água, não sei nadar. Mesmo assim, enfrentei as dificuldades e passei pelos testes na piscina e na casa da fumaça. Aprende-se a lidar com as dificuldades com tranquilidade”, diz o futuro comissário Fábio Straiato, de 27 anos, integrante do curso.

Em uma piscina, aprende-se técnicas de deslocamento na água com bóias de emergência e também de resgate de colegas.

Mergulho na selva ‘inimiga’

Anoitecia quando o Boeing que fazia o voo 254 da Varig perdeu-se sobre a selva amazônica em 3 de setembro de 1989. No comando da aeronave, que fazia a rota Marabá-Belém, no Pará, a última etapa de um voo que começou em São Paulo, o piloto Cézar Augusto Padula Garcez, de 32 anos, cometeu erros ao programar o rumo e acaba a gasolina.

Ele é proibido de voar, mas passa a ser considerado um herói, após um pouso forçado na Serra do Cachimbo, no Mato Grosso. Das 54 pessoas a bordo, 13 morreram na hora. Outros 12 ficaram feridos gravemente. O restante sobreviveu ao mergulho na selva e também às dificuldades na mata.

Abandonados por dois dias até o resgate, sem comida, usaram vodca e uísque para limpar ferimentos. Com o fato, agências de aviação no Brasil passaram a exigir o curso de sobrevivência na mata para os comissários de bordo saberem enfrentar a situação.

 Em setembro de 2006, a Serra do Cachimbo voltou a conhecer a morte em um segundo desastre aéreo. Agora, a tripulação do voo 1907 da Gol, que chocou-se no ar com um jato Legacy, conhecia as regras de sobrevivência na mata, mas não pode aplicá-las. Todos os 154 a bordo morreram na queda.

A tropa do Para-Sar da Aeronáutica passou um mês na selva para resgatar todos os corpos. As dificuldades foram imensas e o maior inimigo, os insetos.

Jornal Diário de São Paulo – Por Tahiane Stochero